CRISE À BEIRA-MAR: PT DE ICAPUÍ RACHADO, REGIMENTO EM XEQUE E LIDERANÇAS EM GUERRA SILENCIOSA
Na manhã desta quinta-feira, Icapuí testemunhou uma cena reveladora da crise política que assola o Partido dos Trabalhadores (PT) no município. O presidente da Câmara Municipal, vereador Normando Silva, experimentou o amargo sabor do isolamento político: apenas quatro vereadores permaneceram no plenário para acompanhar a leitura do novo Regimento Interno, cuja aprovação tem provocado tensões viscerais dentro da base governista.
O estopim do conflito foi uma discussão acalorada entre Normando e a mãe do vice-prefeito, vereadora Hermínia, que se opõe veementemente a pontos do novo regimento. Nos bastidores, cresce a convicção de que Normando sofrerá uma das maiores derrotas políticas de sua carreira com a rejeição da proposta, que segundo críticos, busca transformar a Casa Legislativa numa extensão da Prefeitura — ou como dizem nos corredores, “na cozinha do Palácio Municipal”.
Fontes ligadas à comunidade de Redonda, reduto político do presidente, relatam que há ameaças veladas: caso o Regimento não seja aprovado conforme seus interesses, Normando — com o respaldo do seu padrinho político, o secretário da AgroPolo — poderá romper definitivamente com o governo municipal. A crise é tão profunda que se fala abertamente em um racha irreversível no PT local.
Em uma barraca à beira-mar na praia de Requenguela, integrantes do grupo político ligado ao presidente da Câmara foram ouvidos em uma conversa que vazou e escancarou o clima de insatisfação. Um deles, identificado como chefe da SED (Secretaria de Desenvolvimento), foi taxativo: “Se não fizerem como o Normando quer, nunca mais entregaremos a Prefeitura a esse grupo. O atual prefeito só está no cargo graças ao PT e a Deus”. A frase revela a fragilidade da aliança entre o grupo do prefeito e o PT, movida mais por interesses políticos do que por compromisso com o povo.
Normando alimentava o sonho de comandar a Câmara durante toda a legislatura, sendo reeleito presidente após os dois primeiros anos. Contudo, essa possibilidade tornou-se distante, especialmente diante da promessa feita pelo prefeito ao atual líder do governo, garantindo-lhe a presidência no próximo biênio. O problema é que o líder anda insatisfeito: seu amigo e benfeitor político, o empresário Júnior Medeiros — figura central da campanha do prefeito — se sente abandonado. Embora ocupe cargos de confiança na atual gestão, Júnior não tem sido ouvido. O prefeito sequer atende suas ligações ou visita seu apartamento em Fortaleza, cujo endereço antes era ponto comum de encontro.
A tensão aumentou após o próprio prefeito levantar suspeitas de desvio de recursos no SAAE (Serviço Autônomo de Água e Esgoto), onde, aliás, moradores vêm recebendo contas em duplicidade no mesmo mês. A pergunta que ecoa é direta: quem está desviando dinheiro do SAAE? Quem nomeou a secretária? Quem indicou os comissionados? A resposta está nas mãos do próprio prefeito, que tenta desviar o foco das responsabilidades para atingir antigos aliados.
A divisão interna é tão evidente que, na eleição passada, foi feito um acordo dentro do partido: o primeiro suplente, Marcos Rebouças, assumiria o mandato por um período de quatro meses. Para isso acontecer, um dos dois vereadores — Sidi Vânio ou Hermínia — precisaria se licenciar. Sidi Vânio, que pretende disputar a presidência da Câmara em 2026, poderá deixar o cargo ainda este ano. A vereadora Hermínia, por sua vez, tem mais dois anos de mandato e também poderá se licenciar por quatro meses. Observação: o acordo partidário previa que tanto Marcos quanto qualquer outro suplente poderia ser beneficiado — desde que o compromisso fosse cumprido. Em Icapuí, como se diz, “acordo combinado não sai caro” — e quem quebrar poderá pagar alto.
Enquanto isso, Jefferson Reis, suplente petista e militante histórico do partido, resiste à sedução do grupo governista. Apesar de marginalizado politicamente e vivendo em condições modestas, ele foi categórico ao recusar apoio ao prefeito: “Prefiro comer rapadura e miúdo de galinha e ser fiel aos princípios do PT do que trair minha história”. Um posicionamento raro em tempos de conveniências políticas e traições silenciosas.
O cenário revela um partido em frangalhos, um prefeito cada vez mais isolado, e uma Câmara Municipal prestes a explodir em rebelião interna. A pergunta que ronda os bastidores é: quem ainda governa Icapuí? E mais: o PT está disposto a romper com o projeto que ajudou a eleger ou seguirá sendo apenas uma peça de reposição em um tabuleiro onde os acordos valem mais que os princípios?
Os próximos capítulos prometem: o plenário virou campo de batalha, e o povo de Icapuí — como sempre — é o espectador que paga a conta.

