Entre a Ética e o Poder: O Tabuleiro do Senado
A tentativa do senador Eduardo Girão (Novo-CE) de acionar o Supremo Tribunal Federal para forçar a instalação do Conselho de Ética do Senado expõe a fragilidade dos mecanismos de controle interno no Legislativo. O impasse coloca em xeque a autonomia da Casa frente a denúncias que atingem o próprio comando da instituição.
Davi Alcolumbre, atual presidente do Senado, busca consolidar apoio para sua recondução ao cargo em fevereiro do próximo ano. Nesse xadrez político, a inércia na criação do colegiado não parece fortuita. A estratégia de manutenção de poder exige o controle rigoroso da pauta e a neutralização de qualquer foco de desgaste que possa comprometer suas ambições. Ao evitar a tramitação de representações que pesam contra si, Alcolumbre utiliza a estrutura da presidência como escudo, transformando o silêncio institucional em uma ferramenta de preservação política.
A judicialização proposta por Girão surge, portanto, como uma tentativa de romper esse ciclo de blindagem, provocando uma intervenção externa onde o rito interno falha por falta de vontade democrática. Sem essa pressão, prevalece o método consagrado nos corredores brasilienses: negociações de bastidor que priorizam a sobrevivência do grupo dominante em detrimento do dever de fiscalização.
O roteiro é familiar ao eleitor: denúncias são abafadas pelo tempo e pelo conchavo, enquanto figuras em evidência na crise permanecem inalcançáveis pela justiça legislativa. Enquanto o Congresso ignora o clamor por transparência, o custo dessa paralisia é arcado pela sociedade, que assiste à desmoralização das instituições. A política brasileira, frequentemente descrita como um ambiente avesso a amadores, revela aqui sua face mais cínica: a de que, sem fiscalização constante e coragem para desafiar a estrutura de comando, a ética torna-se apenas uma peça de retórica, descartável diante da conveniência dos detentores do poder.

