Início » Dois pés e duas medidas

Dois pés e duas medidas

por Wilton Medeiros

Dois Pesos, Duas Medidas na Beira Mar

A Prefeitura de Fortaleza tenta vestir o discurso da modernização urbana, mas na prática age com contradição e desigualdade. O reordenamento do calçadão da Beira Mar, que atinge comerciantes antigos e permissionários que sustentam suas famílias há anos, tem o gosto amargo da injustiça. Enquanto alguns setores do turismo recebem incentivos e apoio, o trabalhador comum é empurrado para fora da praia sob o pretexto da “organização”.

Os novos horários impostos pela gestão — das 5h às 16h30 e das 17h à meia-noite — ignoram o óbvio: a Beira Mar vive à noite. É no cair do sol que o turista consome, que o lanche vende, que o ambulante sobrevive. Estabelecer o turno da manhã como período de trabalho produtivo é uma decisão fria e distante da realidade. O vendedor Daniel, que trabalha no local desde 2015, resumiu com clareza: “Não tem como a gente permanecer nele. A gente só quer acompanhar o fluxo da praia, que é de cinco da tarde em diante. De manhã o povo não consome, só caminha e corre”.

A Prefeitura tenta justificar a medida com base em uma suposta recomendação do Ministério Público Federal, mas não apresenta detalhes. A justificativa soa mais como escudo do que como diálogo. Enquanto a burocracia se protege, o trabalhador sofre. A gestão fala em “escuta ativa”, mas na prática impõe decisões prontas. A presidente da Associação dos Comerciantes e Permissionários da Beira Mar, Brisa Mar, afirmou que sequer foi recebida pela Regional 2 e que os pedidos de audiência foram ignorados.

O episódio revela o abismo entre o discurso e a prática. A mesma gestão que fala em inclusão e acessibilidade demonstra insensibilidade com quem vive do próprio suor. É o retrato de uma política que prega modernização, mas entrega exclusão. Modernizar é necessário, mas nunca à custa da dignidade de quem transformou o calçadão em símbolo da cidade.

Fortaleza precisa escolher se quer ser uma cidade planejada apenas para o turista ou também para o povo que faz o cartão-postal acontecer todos os dias.

Postagens relacionadas